Durante minha segunda jornada para Dublin, ao meu lado direito do trem, fui seduzida por uma enorme nuvem que prendeu minha tão concorrida atenção por alguns segundos. Na mesma velocidade do comboio, a nuvem corria linear, cobrindo os verdes acres irlandeses que eu tanto aprendi a amar.

As estórias que pode se contar em uma viagem de trem, por Alessandra Leite. © Davidfreigner | Dreamstime.com

Ao meu lado esquerdo, no assento da janela, do outro lado do corredor, um leitor divide-se entre a leitura de Congo, seu fone de ouvido e as notificações do celular.

À minha frente, um casal de italianos simplesmente parece não saber o que fazer para passar o tempo durante a viagem. Mentalmente, eu lamento. Há tanto para absorver. Respirar. Cristalizar o caminho dentro da alma.

Viagens de trem me transportam para algum lugar mágico, as palavras se oferecem, chegam fácil, dançam tango nos meus pensamentos, em um ritmo perfeito. Tão alinhadas quanto uma valsa orquestrada pelos deuses. Penso que meus mentores espirituais gostam de me ver no caminho e me presenteiam com doses generosas de inspiração.

Continua após a publicidade

Tem algo entre mim e essa Terra dos poetas que transcende qualquer explicação lógica. É como se nos pertencêssemos desde sempre. Era só uma questão de tempo chegar até aqui e me reconhecer em cada nuance do entardecer, em cada raio de sol persistindo sobre o frio e os ventos.

É preciso encontrar o próprio sol, esse brilho que não sucumbirá às tempestades, emergindo de algum lugar insondável para que não desistamos naqueles dias mais gelados.

Ver o Corrib de cima, na parte interna do trem, tem para mim outra dimensão. Deixá-lo para trás mostra-me infinitas possibilidades, contudo, aponta-me um porto, uma espécie de árvore, permitindo que seus galhos toquem o céu ou uma espécie de mãe, soltando os filhos no mundo sem desprendê-los do coração. Há sempre um lugar para voltar. Não importa o quão longe você vá, seu sol interno lhe indicará a direção. As respostas sempre estiveram no mesmo lugar. Só é preciso sair de si, romper, ainda que lentamente, as amarras dos seus maiores medos. Será epifânico, num fim de tarde, a caminho de algum lugar, fitando os dois lados de um trem, que uma luz oriunda do horizonte te fará imergir naquela imensidão que, para ser sincera, até você desconhecia.

Colaborador edublin

Este conteúdo - assim como as respectivas imagens, vídeos e áudios - é de responsabilidade do colaborador do edublin e está sujeito a alterações sem aviso prévio. Quer ver sua matéria no edublin ou ficou interessado em colaborar? Envie sua matéria por aqui!

Recent Posts

Associação de Escolas de inglês na Irlanda pede ao setor de imigração ‘período de transição’ para novas regras de comprovação financeira

Uma atualização recente publicada no site oficial de imigração da Irlanda revelou uma mudança significativa…

3 de abril de 2025

Patrulhas municipais vão proteger a estátua de Molly Malone contra abuso de turistas em Dublin

A famosa estátua de Molly Malone, localizada na Suffolk Street, no centro de Dublin, na…

1 de abril de 2025

Intercambio na Irlanda vale a pena?

Você está pesquisando sobre como estudar e trabalhar no exterior e se perguntou: será que…

1 de abril de 2025

Quais as melhores cidades para fazer intercâmbio na Irlanda

Se sua dúvida é quais são as melhores cidades para fazer intercâmbio na Irlanda, você…

1 de abril de 2025

Molly Malone: conheça a história por trás da estátua

Passeando pelas redondezas da região de Dublin 2, próximo à Suffolk Street, uma estátua chama…

1 de abril de 2025

ETA: como funciona a autorização eletrônica de viagem ao Reino Unido

Há muito tempo se fala sobre o ETIAS (European Travel Information and Authorisation System), sistema…

31 de março de 2025