Adriana vem hoje compartilhar um pouco a sua história com as viagens. Arquivo pessoal.

Viajo porque me canso de ver sempre os mesmos produtos na prateleira. Preciso aguçar meu paladar e só do outro lado da fronteira é que tem o tempero novo.

Viajo pra saber se o beijo de língua é universal. São muitos os tipos e todos vêm do mesmo instinto. É o desejo pelo outro, que aqui, lá ou acolá, é sempre igual.

É uma ânsia de devorar. Viajo, então, pelo outro. Sim, para encontrar aquele ser que, talvez, não vou me demorar muito numa prosa, mas que vai me dar um bom dia, boa tarde ou um “bora pra noite”.

É um amigo, uma amiga, uma companhia boa para alguém como eu, que decidiu ir sozinha, porém não solitária.

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Pois só assim, sem conhecer ninguém a fundo, dou espaço para o meu eu sair de casa e fazer o que quiser – e ele quer! Saber as dores do mundo, conhecer o clichê de todos os horizontes, aprender a dizer obrigada e a contar até 10 em diferentes idiomas, só para fazer a simpática quando encontrar um estrangeiro.

Viajo pela sorte. O dinheiro é curto e a mochila pesada, aí conheço um camarada, um grupo de amigos, um bando de gente bonita que me oferece um lugar na sala, se eu não me incomodar. A noite foi linda e me acomodo no sofá da casa de uma gente que já esqueci o nome, porém lembro bem das gírias e tiques.

Tem sempre um gente boa, um mal humorado de coração puro ou o truqueiro que xingo todo o passado e espero nunca mais encontrar no futuro. Tanta gente boa que não vou lembrar, mas que, talvez, se lembre de mim quando encontrar um conterrâneo meu: – Ah, Você é do Brasil? Conhecemos uma brasileira que ficou aqui em casa com a gente um tempo, qual a o nome dela mesmo? Sebastiana?

Fragmentamos a memória em momentos e temos quase a certeza que foi uma semana, mas nem eu e nem eles nos recordaremos disso… mas não tem problema.

Viajo pela nostalgia. Já sinto saudades daquele tempo que ainda não chegou, mas que já sei como será.

Sentirei saudades das noites mal dormidas em aeroportos, da comida que me fez vomitar no ônibus, do pacote de bolacha que foi café da manha, almoço e janta, daquela comida estranha, das paixões que quase me fizeram largar tudo – aliás, pode ser que um dia eu até encontre mesmo uma que me faça jogar tudo pro ar e ficar.

É por isso que viajo.

É para ver o que acontece quando as minhas necessidades se limitam pelo peso que minhas costas aguentam.

Viajo pelo até logo. Viajo por mim mesma.

Sobre a autora:
Adriana Ribeiro é Paulista, formada em rádio e TV e nas duras esquinas da vida. Cismou que é poeta, mas que lhe faltava conhecimento de causa e dor. Decidiu, então, viajar para, no seu caminho, encontrar linhas e rimas. Você também a encontra em Bizunnga.

Revisado por Tarcísio Junior
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